Reencontro com o passado

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Um reencontro com o passado.
O brilho nos olhos ao rever fotografias antigas na parede. Memórias de um tempo distante, mas que permanece impresso na alma e no coração.
A história de vida de Diefferson da Costa Sombra, de 35 anos, estará para sempre ligada à Oficina Escola de Lutheria da Amazônia (OELA).
Isso porque, ele fez parte da primeira turma do curso de lutheria da instituição no ano de 1998.
Hoje casado e pai de três filhos, ele tem uma sólida carreira como químico e conta nesta entrevista ao site da OELA, um pouco de toda essa trajetória e de quanto a instituição foi importante para o seu desenvolvimento como pessoa.
Mais do que aprender a fazer instrumentos musicais, Diefferson aprendeu lições de disciplina, amizade e perseverança.

Você foi aluno da primeira turma de lutheria. Como foi que essa história começou?
É uma longa história.
Começamos aqui, na OELA, em março de 1998. Eu, Genezivam, Gean, Ricardo, Marcos Cruz, Isaias… Para mim foi um divisor de águas.
Eu vim para conhecer o local. Pensei que era para aprender a tocar instrumentos e era para confeccionar os instrumentos. Muito tempo depois entrou um professor de música, o Welson Johnson, um cara fenomenal. Parceiro da escola por muitos anos. Formamos um grupo de flauta, um grupo de musical mesmo e tocamos em vários lugares.
A OELA para mim ela foi um divisor de águas, porque ela me ensinou muitos princípios, a ser um bom cidadão e não ser apenas um luthier, tanto que eu me formei, mas não segui a carreira. Entrei para o quartel, segui minha vida profissional, fiz faculdade e por aí vai.
Mas para mim a OELA faz parte da minha formação como pessoa, como cidadão, me moldou a ter bons princípios na vida. Considero demais o Rubão (Rubens Gomes, fundador da OELA), assim como Isaias e o Welson Johnson.
Aqui passamos por várias dificuldades. Quem vê assim, agora, não sabe o que a gente passou. A gente trabalhava na casa do Rubão. Era só um galpão. Eu só tenho a agradecer a instituição, ao idealizador, o Rubens Gomes, isso aqui é um projeto fantástico junto à sociedade.

Você sempre morou no Zumbi dos Palmares. Como foi seu primeiro contato com a OELA?

Eu sempre morei no Zumbi. Fiquei sabendo pelos amigos. Eles chegaram para mim e falaram: “Mano tá tendo ali um curso bacana de música”, tanto que eu achei que fosse curso de música para tocar instrumentos. Então em vim com o intuito de aprender um instrumento. Mas aí me apeguei a arte de confeccionar um instrumento. Não é fácil fazer um. Tem que dividir o braço, o tampo, o fundo, fazer a lateral. Quando eu entrei aqui eu tinha 12 anos. Em vezes de estar na malandragem por aí, eu preferia estar empregando meu tempo aqui aprendendo uma arte e me adequando a sociedade.
Em 1998, quando o curso começou, o bairro Zumbi era um bairro muito complicado. Não tinha infraestrutura, era barro para todo lado, não tinha água. Me fala um pouco desse cenário.
Não tinha asfalto, não tinha água, era um cenário bem complicado. Era bem tenebroso. Eu sempre morei aqui com meu pai e minha mãe. Sou filho único. Na minha casa a disciplina sempre coisa séria.
Eu entrava aqui na OELA às 8h e saia às 17h. Passava o dia aqui e à noite eu ia para a aula. Isso me ajudou a ter uma boa formação como pessoa, com princípios. Eu agradeço muito a OELA. Sempre comento muito com as pessoas. Quero que meus filhos estudem aqui também.

Como foi a sensação de fazer o seu primeiro instrumento?
A sensação é que parece um filho. Eu não digo nem pelo primeiro instrumento, mas a gente teve uma encomenda uma vez, do Paulinho da Viola. Ele encomendou um cavaquinho com microafinação. A gente nunca tinha feito um instrumento com microafinação. Quando ficou pronto, quando o cara tocou a aprovou… O nosso ego foi lá em cima.
Foi um feedback muito positivo e o Paulinho da Viola é uma lenda, né?
Na época a gente passava muita dificuldade, então quando a gente vendia um instrumento era uma alegria. Era como a gente conseguia dinheiro para comprar mais madeira para trabalhar. Dava para comprar um suquinho, um guaraná, era como a gente ia se mantendo.
Na época não tinha apoio. Nós éramos poucos, mas com muita vontade de aprender. A gente era um grupo muito unido. Uma família. Eu, o Gean, o Genesivam, Marcos Cruz…
Uma vez tinha um amigo nosso, o Marcos, estava passando por dificuldades. Nós fizemos um mutirão, sem ele saber, e fizemos um quarto lá para ele na casa dele.
Tinha o professor Gean (Dantas), também. Eu tiro meu chapéu para ele. Hoje ele é professor na OELA e na época ele vinha da Compensa para cá todos os dias. Um verdadeiro guerreiro, atravessava a cidade. O nosso grupo era fenomenal!

Depois de finalizar o curso na OELA você foi para o Exército. Como foi essa transição?
Eu não senti muito a transição porque eu já tinha a disciplina daqui. Eu passei cinco anos no Exército e fui me destacando.
Me formei em Química e trabalho com isso até hoje. Sou químico há 14 anos. Sou formado em Economia e fiz uma pós em Controladoria e estou no sexto período de Contabilidade.
Eu gosto muito de estudar e aprendi muito isso aqui. Além de buscar os seus sonhos a gente nunca pode desistir nos primeiros obstáculos, nas primeiras dificuldades.

Você sempre fala com muito carinho dos amigos que você conquistou aqui. Essa amizade permanece até hoje?

Aqui ganhei amizades para a vida toda. Irmãos que até hoje frequentam a minha casa.
Nós éramos só cinco.
Lembro que o Rubão chamou nossos pais para explicar o projeto. Ninguém sabia o que ia acontecer. Já pensou, nós, meninos, todos com 12, 14 anos, todos moleques. A gente chegava aqui 8h e saia 17h. Então o Rubão juntou todos os pais para explicar sobre o projeto de lutheria e todos ficaram mais tranquilos.
Foi fenomenal isso aqui. Eu olho essas fotos e me emociono. Eu vejo uma história aqui.
Queria deixar um recado para os alunos: Que venha mesmo e venham com vontade. Mesmo que não se forme luthier, mas que venham com vontade de aprender, porque além das técnicas de lutheria, o aluno vai sair daqui um bom cidadão.

Você ainda fabrica instrumentos?
Não. Até hoje eu gosto muito, eu frequento muito as redes sociais da OELA, e eu também tenho vários amigos que formaram e continuam trabalhando com lutheria. Eu sempre estou visitando a OELA. E lá em casa está em reforma e eu já falei para a minha esposa que quero um cantinho para brincar de lutheria lá.

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